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O avesso da camisola amarela

por MC, em 29.05.16

(Para ti, querida R., para veres que sim, que te ouço sempre com muita atenção.)

 

A Rita sai do banho apressada e os seus olhos procuram de imediato o relógio na mesa-de-cabeceira. Outra vez atrasada. A celeridade dos gestos não se coaduna com um Domingo soalheiro de Primavera. Outro fim-de-semana que não lhe pertence. A camisola amarela repousa, plana e engomada, em cima da cama. Enquanto se veste, as várias etapas da sua vida assomam-lhe à memória como num filme antigo.

Lembra-se de quando pela primeira vez concorreu ao concurso de professores e ficou colocada numa escola a mais de trezentos quilómetros de casa, longe do morno colo familiar e do abraço do namorado, seu amor de sempre, destinado a si desde as carteiras da escola. Do quanto lhe custava sair, madrugada fora, às segundas-feiras, e de passar toda a semana sozinha num lugar que não era o dela, dos momentos de solidão e saudades de casa, onde só retornava aos fins-de-semana.

Depois casou-se e logo descobriu que estava grávida, no mesmo dia em que soube da sua próxima colocação numa nova escola, ainda mais longe do que a primeira. O desespero e a aflição não se escoavam nas lágrimas que teimavam em correr, sempre que pensava no futuro da sua vida de eterno saltimbanco, que tão bem conhecia dos colegas de estrada.

Então, através de um amigo de um amigo de uma pessoa da família, conseguiu uma entrevista de emprego no colégio da sua cidade e lá foi, a apreensão afogada na garganta, saber com que linhas se alinhavava a vida numa escola privada. Foi desde logo informada que ali se vivia a escola ‘em família’, que se ‘vestia a camisola’, que ‘se dava o tudo por tudo’ e que – como em qualquer boa família que se preze – os problemas que surgissem era resolvidos tendo em vista o bem geral da comunidade e não os interesses pessoais de cada um. Assim sendo, afiançou-lhe o senhor director de indicador em riste e semblante austero, não se admitiam ali os vícios da escola pública, a bandalheira das diatribes sindicais e os privilégios corporativos dos professores, tão prejudiciais às metas de excelência que eram apanágio daquele estabelecimento.

E lá vestiu a Rita ‘a camisola’, tantas vezes impregnada de abusos e arbitrariedades, tantas vezes encharcada de humilhações e atropelos aos seus direitos laborais, frequentemente açambarcadora voraz do tempo que havia de ser seu por direito.

E sempre que era chamada ao gabinete do director, para ouvir de viva voz e cabeça baixa as queixas de um encarregado de educação desagradado com a avaliação do seu petiz, a Rita pensava nas suas amigas e colegas do ensino público, eternas contratadas, há décadas a calcorrear quilómetros para trabalhar.

E sempre que era chamada em cima da hora para, no seu tempo livre, ir dar as aulas a que a esposa do senhor director, subitamente indisposta, não poderia comparecer, a Rita consolava-se com o privilégio que era sair do colégio, ainda que tarde e a más horas, e preparar o jantar das crianças, dar-lhes banho, poder aconchegá-las nas caminhas quentes nas noites de Inverno, todas as noites, de todas as semanas, do ano inteiro.

E sempre que comparava o seu recibo de vencimento, tantas vezes arbitraria e maldosamente amputado ao sabor de razões manhosas mas indiscutíveis, ao dos colegas da escola pública, a Rita não deixava de pensar que as escassas dezenas de euros que eles ganhavam a mais do que ela jamais chegariam para pagar as despesas, o desgaste e o desalento de estar longe dos seus.

A Rita olha para a camisola amarela em cima da cama, a camisola que resulta das decisões que tomou nas encruzilhadas da vida, das escolhas que fez e que achou que melhor serviriam o bem-estar dos seus e a sua felicidade. Sabe que regressam agora todos os medos. A angústia, a aflição e a desesperança de não ter trabalho voltam a corroer-lhe o espírito e a puxar-lhe o tapete debaixo dos pés.

Sabe isso tudo, mas não tem vontade de ir para a rua e reivindicar coisas que não são honestas. E sabe que vestir aquela camisola, naquele Domingo de Primavera, é defender o indefensável. Respira fundo, ao mesmo tempo que a enfia rapidamente pela cabeça e os braços enveredam intuitivamente pelas aberturas das mangas. Talvez se o director a vir na manifestação, envergando com dedicação e entrega a camisola amarela da causa, ela ainda tenha uma ínfima hipótese de estar entre os poucos escolhidos que mantêm o seu posto de trabalho. Não pode agora perder a esperança.

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publicado às 17:46

O Rei vai nu

por MC, em 26.05.16

art-glasses (1).jpg

"Several visitors to the San Francisco Museum of Modern Art this week were fooled into thinking a pair of glasses set on the floor by a 17-year-old prankster was a postmodern masterpiece.

To test out the theory that people will stare at, and try and artistically interpret, anything if it’s in a gallery setting, Khayatan set a pair of glasses down and walked away.

Soon, people began to surround them, maintaining a safe distance from the ‘artwork’ and several of them taking pictures.

The teen behind the hoax had similar success with a baseball cap and a bin."    (daqui)

 

Dá-me ideia que 'o rei vai nu' com cada vez mais frequência. Não sei se a 'monárquica tendência' é apenas uma coisa estúpida ou potencialmente preocupante. 

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publicado às 18:10

Velhice

por MC, em 18.05.16

velhice.png

 

 

A velhice é má. Não interessa quão bonitas são as florzinhas nos graciosos vestidos lilases das velhinhas dos anúncios das fraldas descartáveis, a velhice é má. Não importa quão viçosa é a relva dos jardins onde passeiam, airosos, os velhinhos que tomam as gotas da artrite, a velhice é do piorio. A velhice cheira a ranço, a marasmo e a urina. A velhice esvazia-nos os heróis, quebra-os, esboroa-lhes maldosamente os alicerces e larga-os à deriva numa barcaça desnorteada. Quedam-se por aí, murchos e enrugados como balões em fim de festa, a embater de manso pelas paredes. Não sabemos verdadeiramente sobre impotência e frustração senão quando nos envelhecem os amores.

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publicado às 23:26

Ironing, Leslie Graff

por MC, em 11.05.16

ironing leslie graff.jpg

 

 

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publicado às 22:37

 

A minha opinião? Claro que dou… isto vai passar quando? Ai está em directo? Nas notícias da tarde? Bem, então é assim: nós estamos aqui - pais, professores e funcionários - para defender o nosso colégio e vamos ficar aqui até nos ouvirem, nem que seja todo o dia e toda a noite! Nós, os cidadãos deste país, pagamos os nossos impostos e por isso devemos ter o direito de escolher a escola dos nossos filhos! Hã…?

Sim, sim, conheço a escola pública, fica ali ao fundo da rua… até dizem que é muito boa, que ficou em primeiro lugar nos ranques - ou lá o que é isso – no ano passado… Mas aquilo não é para o meu Micael… ele já lá andou, mas chumbou duas vezes – os professores lá são muito exigentes, puxavam muito por ele, coitadito – até que o mudei aqui para o colégio e ele agora até tem boas notas, veja lá o senhor! Os professores aqui compreendem-no melhor, entende?

O meu Micael, lá na outra escola, só gostava de uma professora, era a única que tinha paciência para ele, mas chegou ao fim do ano e ela teve de se ir embora, porque foi a um concurso, está a perceber, e ficou colocada numa escola muito longe; fartou-se de chorar, coitada, porque ela queria ficar ali e os alunos também queriam que ela ficasse… e vai-se a ver mandaram-na para longe. Diz que havia outros professores com melhores notas ou médias ou quê e passaram-lhe à frente! O senhor está a ver isto? Mas que país é este, senhores? Já não há justiça?

Já aqui, no Colégio de Santo António da Cunha, isso nunca acontece! Os professores aqui não vão aos concursos, que é lá isso?! É como diz o senhor director, “aqui somos todos uma grande família”! E olhe que ele não diz isso só por dizer, é mesmo verdade, ora veja lá: a professora de Português do meu Micael, por exemplo, é sobrinha do senhor director, o marido dela é professor de Matemática e a professora de Ciências é filha da subdirectora, que por acaso, até é cunhada do senhor presidente da câmara! Está a ver? É tudo gente da terra, tudo boa gente, que se ajuda uns aos outros, entende?

Não há direito de virem agora dizer que não posso cá ter o meu Micael! Era o que faltava, depois de eu ter gasto um dinheirão nas t-shirts com o emblema do colégio e nos fatos de treino e no uniforme! E olhe que bem me vi aflita para os comprar, nem queira saber! E o estado chegou-se à frente nestas despesas? Hã? Era o chegavas! Acha isto bem? Paguei eu tudinho e olhe que, nesse mês, o que me valeu foram umas coisinhas que a minha sogra trouxe lá do banco alimentar, senão estava a coisa malparada, que o subsídio é uma miséria, não dá para nada!

Mas olhe que foi um dinheirinho muito bem empregue, lá isso foi! Olhe que o meu Micael nunca mais vestiu outra roupa: sai de casa muito brioso todas as manhãs com a sua t-shirtezinha do colégio, com aquele emblema de bordadinho dourado, para fazer ver àquelas songamongas soberbas da vizinhança que não somos nenhuns pelintras!

E agora isto? Fazem uma coisa destas ao povo que tanto lutou pela liberdade e pela democracia e pelos seus direitos? Admite-se isto? Não há de uma pessoa ficar indignada? É uma vergonha, é o que é.

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publicado às 22:00

Também

por MC, em 04.05.16

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publicado às 22:53

Apuramento do ilícito (2)

por MC, em 01.05.16

Os rapazes continuam sentados no gabinete. Os olhares arredios, perdidos nas pequenas imperfeições da parede, evitam cruzar-se. As caras vermelhas e transpiradas vestem-se dos trejeitos distraídos de quem se embrenha em pensamentos agitados. O director, sentado à secretária, procura contactos, toma notas, lança olhares zangados e vigilantes na direcção dos velhacos. A mão estaciona, de caneta esquecida em punho, a meio caminho da folha.

O pensamento escorre-lhe para dentro de si, vê-se menino ainda, recorda o olhar sério e interessado do seu pai quando, ao serão, lhe fazia perguntas sobre a escola. Revê os seus livros e cadernos abertos na mesa da sala, onde fazia os deveres. Os dedos maciços e tortos do pai, pouco habituados ao rendilhado fino das letras, folheavam as páginas carregadas de caligrafia miudinha e irregular com a delicadeza inesperada de quem degusta um privilégio. Desde cedo entendeu claramente, apesar da imaturidade da meninice, que o valor que o seu pai atribuía ao conhecimento e à educação era tão desmesurado que jamais abriria no seu entendimento uma brecha de tolerância para faltas de respeito ou comportamentos despropositados. Sempre sentiu, desde que se entendeu como gente, o reinado absoluto da razão inapelável de um adulto sobre uma criança, mais ainda se esse adulto fosse um professor. 

O olhar foge-lhe para os tratantes, o semblante carregado de zanga e incompreensão. Pega no telefone e ampara, com o indicador, o primeiro número que anotou. “Pronto, vou agora ligar para tua casa, menino Diogo”, informou com secura e agastamento. “Os vossos pais vão ficar muito contentes convosco, vão, vão”, continuou, “quando eles souberem a despesa que vão ter por causa da vossa gracinha!” Respirou fundo para engolir a arrelia. “E a tua mãe, Diogo? Já pensaste como ela vai ficar quando souber que vais apanhar uma suspensão outra vez? Isso não te preocupa? Não pensaste nisso? Hã?”

O Diogo pensou. Pensou na sua mãe e tentou recordar-se de quando a vira pela última vez. Anteontem? Não, ontem de manhã. Fora chamá-la logo cedo, antes de ir para a escola, porque precisava de dinheiro para pagar as refeições na escola e comprar folhas de ponto. Encontrou-a ferrada a dormir. Respondeu-lhe um resmungo numa voz mastigada de sonâmbula e atirou-lhe com a almofada quando ele insistiu. Quando chegou a casa, à tardinha, ela não estava. Deixara-lhe um recado, rabiscado no verso da conta do supermercado: “saio tarde; se quiseres jantar vai a casa da avó; se não quiseres, come pão, há manteiga no frigorífico; não fiques a ver televisão até tarde”. No espaço livre do papelito, o Diogo escreveu: “quando chegares não te esqueças de assinar o teste de Ciências, ontem não assinaste e a parvalhona da setora passou-se, marcou-me falta”. 

Depois ficou alapado no sofá, a ver séries madrugada a dentro. Acordou de manhã, enregelado e baboso. O teste de Ciências lá estava, em cima da mesa, intocado, o bilhetinho ainda encostado a ele. Os olhos baços do sono percorreram a cozinha, o saco vazio lembrou-o de que tinha comido o pão todo na noite anterior. No frigorífico encontrou uma caixa com uma substância indefinida e espapaçada, de forte odor acre. Retraiu-se com um esgar de nojo e fechou a caixa rapidamente. Calçou as sapatilhas e saiu para a escola. Teve outra falta de material. Faltou a Matemática para ir almoçar. O resto já se sabe.

O director continuava a mirá-lo, os olhos muito abertos de perplexidade, à espera da resposta à sua pergunta. “Agora não dizes nada, não é? Ok, vamos lá ver o que a tua mãe acha.” O Diogo observava-o enquanto marcava os dígitos uma vez e outra e mais outra. Via-lhe o olhar frustrado e a impaciência dos gestos, a experimentar sem sucesso os números de contacto de que dispunha. Sorriu dissimuladamente, de cabeça baixa, e cochichou entre dentes: “Sim, sim, vai tentando… boa sorte aí, mano!”

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publicado às 23:31


Este estendal é meramente um exercício de egocentrismo. É a roupa que eu estendo, quando calha.

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